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sexta-feira, 10 de agosto de 2012

MULHERES DE PEDRA » Vidas tragadas pela droga

 (Daniel Ferreira/CB/D.A Press)


Na política, as mulheres conquistaram voz há 80 anos, quando o Código Eleitoral as incluiu, por meio do voto, no processo democrático. A Constituição de 1988 igualou direitos e deveres entre gêneros. Mas, muito antes, elas se destacavam nas artes, nas ciências. Em 1885, Chiquinha Gonzaga regeu uma orquestra. Dois anos depois, Rita Lobato Velho foi a primeira mulher a formar-se médica. Há quase dois séculos, a imperatriz do Brasil, Maria Leopoldina Josefa Carolina, casada com Dom Pedro I, criticou o próprio marido e teve forte influência na proclamação da independência. Há dois anos, os brasileiros aprenderam a chamar uma mulher de presidenta.

Na próxima quinta-feira, Dia Internacional da Mulher, quando milhares delas prestarão homenagem às 129 operárias que morreram em 1857 (Nova York) porque brigavam pela redução da jornada de trabalho e pelo direito à licença-maternidade, algumas não terão vitórias a festejar ou conquistas a planejar. Elas são mães, mas não cuidam dos filhos. Muitas são donas de casa, mas moram na rua. O alimento dos seus sonhos cabe em um cachimbo. É uma combinação de cocaína com bicarbonato de sódio, amônia, água destilada e, às vezes, solução de bateria. Suas fantasias duram 10 segundos. Os pesadelos são persistentes.

Se dão à luz, o leite que vem dos seus peitos pode ser veneno. Endurecidas pelos desgostos da vida, os desamores, as desilusões, os abusos que sofreram na infância, elas se tornaram vítimas do meio em que vivem, de si próprias, e dependentes de uma das drogas mais agressivas que existem. São as mulheres de pedra. Viciadas em crack. Quando estão dominadas pela química semeiam doenças, tristeza, desamparo. Desesperadas, buscam a morte como saída. Protagonizam um drama que cresce silenciosamente em bocas de fumo da periferia ou em festas da classe média. Vivem uma realidade que lhes rouba os próprios filhos, a dignidade, a educação, até o viço dos cabelos, de suas unhas, pele, de suas curvas.

O álcool, a maconha, o ecstasy, a merla, o haxixe e a cocaína são os degraus que levam escada abaixo, onde o fundo, às vezes, é o envelhecimento precoce e até a morte prematura. Em homens ou mulheres, os efeitos da pedra são devastadores, mas nelas há consequências peculiares, para além de suas vidas. Uma mulher viciada fica mais vulnerável à gravidez, mas, invariavelmente, se torna menos capaz de dar amor, proteção, lições. Dos poucos estudos que abordam o uso do crack no universo feminino, o Perfil dos usuários de cocaína e crack no Brasil (Profile of cocaine and crack users in Brazil) reúne documentos até 2008 de uma realidade cada vez mais escancarada nas ruas das cidades brasileiras.

Sexo pela pedra:
Em entrevistas feitas com um grupo de 75 mulheres dependentes de crack em São Paulo e São José do Rio Preto (SP), constatou-se que elas são jovens mães, com baixa escolaridade e que vivem na casa de parentes. No grupo, a maioria, informa a pesquisa, trocava diariamente o sexo pelo crack, sem escolher parceiros, sem colocar limites no tipo de relações mantidas e sem a proteção da camisinha.

Esse aspecto da pesquisa não alcançou Brasília. Mas especialistas no enfrentamento das drogas observam que a capital da República reproduz as mazelas da massificação da cocaína em pedra nas metrópoles. “O crack é uma das drogas mais intensas que existem. Causa compulsividade severa. Quando os usuários não têm como comprá-la, entram no crime para levantar dinheiro. Os homens empunham revólver, faca. Eles roubam, assaltam. A principal arma das mulheres é o próprio corpo. Não há escapatória, elas sempre vão chegar à prostituição”, descreve Luciano Gonzaga, ex-policial do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar (Bope), hoje pastor, que há 12 anos desenvolve um trabalho para resgatar almas das bocas de fumo. Nesse período, conseguiu encaminhar 512 usuários a clínicas ou comunidades terapêuticas.

Entrevistas com usuários de crack que passaram pelos Centros de Atenção Psicossocial de Álcool e Drogas do Distrito Federal (CapsAD) — realizadas no ano passado — confirmam que a prostituição é um meio de sobrevivência entre os viciados. De 100 dependentes, 23 admitiram prostituir o corpo em troca da droga. Um grupo ainda maior, de 33 pessoas, contou que não usa camisinha nas relações. O problema se agrava quando projetado para o universo de, pelo menos, 3 mil dependentes que procuram socorro todos os meses nos CapsAD. Um terço são mulheres. Em uma semana que deveria ser só de comemorações, o Correio contará histórias de como o crack corroeu a vida de meninas, mães e avós viciadas e quebrou, pedra a pedra, a espinha dorsal de suas vontades.

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