No Centro Comercial Presidente, uma grande galeria próxima à Praça da República no centro de São Paulo, há um intenso fluxo de nigerianos e outros estrangeiros de origem africana. Eles dominam, no local, o comércio de perucas e apliques de cabelo. Algumas lojas, essas com proprietários brasileiros, destacam-se também pela venda de discos antigos de vinil.
No quarto andar deste prédio - o ultimo e onde o acesso já não é mais possível pela escada rolante, mas por uma escada de metal estreita - está o Centro de Convivência É de Lei, organização não governamental que desde 1998 trabalha com a perspectiva de redução de danos e riscos junto aos usuários de drogas.
Numa tarde da semana passada, Camila Alencar tinha acabado de chegar da Cracolândia com novas filmagens do local. “Estamos tentando documentar esse processo de expulsão das pessoas que vivem ali na região”, comentou a jovem, uma das diretoras do grupo.
Coordenadora do projeto Ponto de Cultura de Rua, na Rua, pra Rua, cujo objetivo é ensinar linguagem fotográfica e audiovisual aos usuários de drogas e outros interessados, Camila critica a ação policial na Cracolândia. “Isso não vai levar a nada. A Cracolândia não é um lugar. É, na verdade, um grupo de pessoas que usam drogas. Quando forem expulsas dessa região da Luz, elas irão para outros lugares”, comenta.
Assim como Camila, o vice-presidente do É de Lei, Thiago Calil, disse à Agência de Notícias da Aids que o poder público ignora que os usuários de drogas da Cracolândia também são seres humanos.
“É preciso mais tolerância e respeito às escolhas individuais”, defende ele.
Vulnerabilidade na Cracolândia
O crack é uma mistura de cocaína com bicarbonato de sódio ou amoníaco, fumada principalmente em cachimbos de alumínio. Os efeitos são euforia, autoconfiança, energia e poder. Ao fumar, o usuário alcança esses efeitos rapidamente, já que a absorção acontece nos pulmões. Tal característica faz com que o dependente sinta falta da droga em pouco tempo e repita o uso com grande frequência, provocando queimaduras nos lábios e, consequentemente, rachaduras que podem ser porta de entrada para infecções virais durante o compartilhamento do cachimbo.
Thiago Calil, que é psicólogo, começou a trabalhar no É de Lei há oito anos. Desde então, ele tem tido contato com dependentes químicos da Cracolândia.
Para ele, além dos riscos no compartilhamento do cachimbo, as pessoas que vivem nesta região estão expostas a muitos outros fatores que as deixam mais vulneráveis à infecção do HIV. “Os usuários de drogas da Cracolândia, geralmente, dormem pouco, passam fome, estão sempre fugindo da polícia e muitos deles fazem sexo como moeda de troca pela droga”, cita o especialista.
Thiago recorda que em busca da prevenção das hepatites virais e do HIV entre os usuários de crack, o Ministério da Saúde começou, em 2003, a disponibilizar cachimbos de madeira que não queimavam a boca. O material integrava o kit de redução de danos, que continha preservativos, informações sobre drogas e de locais de atendimento. No entanto, a estratégia não obteve êxito. Os usuários rejeitaram o novo material, lembra Thiago, porque não era possível extrair dele a “borra”, resina de crack que fica grudada no metal do cachimbo. “Por ser mais forte, é considerada por muitos dependentes como o recheio da droga”, explica.
Em 2005, depois de consultar especialistas, o Ministério passou então a disponibilizar uma piteira de silicone, que cobre a área do cachimbo em contato com a boca e impede as queimaduras nos lábios. O material é até hoje usado pelo É de Lei nas ações de redução de danos. “Ela atua como uma camisinha para cachimbos”, brinca Thiago.
O psicólogo acredita que assim como ocorreu com a educação sexual preventiva, as discussões sobre as drogas ainda precisam evoluir muito.
“Hoje já é possível falar abertamente sobre sexo nas escolas e com os pais... Mas sobre droga ninguém fala”, finaliza.
É de Lei
O Centro de Convivência É de Lei atende uma média de 15 pessoas por dia. Entre funcionários e voluntários, o grupo atua com 10 profissionais.
Além do projeto Ponto de Cultura, apoiado pelo Ministério da Cultura e Governo do Estado de São Paulo, o É de Lei desenvolve o Projeto de Redução de Danos (PRD), em parceria com a Secretaria Municipal da Saúde; e o Saúde em Festa, que com apoio do Ministério da Saúde leva prevenção de doenças e educação em saúde a baladas raves.
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